Percorrendo as Origens do Movimento Slow na Itália

Itália. Mais uma vez.
Sigo o "não-roteiro" padrão: um dia antes, agendo o lugar onde irei me hospedar quando chegar. Arriscado? Com certeza. Mas tenho um hábito difícil de mudar. Deu certo das últimas vezes, então... Por que não?
Toda vez que estou aqui, sinto vontade de ficar para sempre. Mas o universo não anda conspirando a meu favor! Paciência.
Já estive aqui muitas vezes e tenho que parar de reclamar que, depois de tudo, voltarei para "casa". Acho que a "rabugice" tem a ver com o fato de eu ter vindo comemorar meu aniversário de meio século de vida. Um privilégio, sem dúvida.
Minha intenção inicial era conhecer cidades e regiões ligadas à cultura do viver devagar. Roma era o começo simbólico. Em 1986, na Piazza di Spagna, um grupo de pessoas protestou contra a abertura de um restaurante de fast food. Daquele protesto nasceu o Slow Food. Anos depois, inspirado por essa filosofia, surgiu o Cittaslow. E, nesse mesmo espírito, a ideia de viajar devagar.
Fui à Piazza di Spagna para rever o lugar. Gente por todo lado, subindo e descendo a escadaria, tirando fotos, se esbarrando. Enfim... é Roma!
Fiquei um tempo ali. Fiz alguns registros e percebi uma coisa: por mais caos que esses lugares possam transmitir, há um certo 'conforto' na arquitetura e na urbanização, que funciona como um filtro, por meio do qual a beleza ainda permanece.
Esse lugar, íntimo e escondido no inconsciente, oferece aos olhos desacostumados um deleite. Uma alegria de estar ali, naquele momento presente.
Caminhei bastante por bairros que não conhecia. Deixei os pés me levarem desta vez, até onde eles aguentaram. Me emocionei mais uma vez em uma dessas enormes catedrais que só aqui é possível contemplar.
Nos dias que se seguiram, adentrei o coração verde da Úmbria, depois Toscana, Piemonte, Emília-Romanha e Lombardia. Uma viagem que rendeu boas caminhadas pelo país da bota, mais uma vez.
E essa história ainda tem muito chão pela frente.

Orvieto: quando a filosofia Slow chegou às cidades
Orvieto é um sonho. Uma cidade erguida sobre um platô de pedra, com aquele ar medieval de conto de fadas. Foi difícil ir embora depois de ter explorado bastante esse lugar.
Mas a cidade não é especial apenas por sua beleza. Foi aqui que, em 1999, aconteceu a fundação oficial do Cittaslow, associação que nasceu da iniciativa de quatro cidades italianas: Orvieto, Bra, Positano e Greve in Chianti.
Nascia oficialmente o Cittaslow, um movimento que defende cidades mais humanas, a preservação das identidades locais, a valorização do comércio e das tradições e, sobretudo, uma melhor qualidade de vida. A ideia era simples, mas poderosa: desacelerar também deveria ser uma escolha coletiva, refletida na maneira como as cidades são pensadas e vividas.
Talvez por isso tenha sido tão interessante caminhar por suas ruas e observar como essa filosofia se relaciona com a vida cotidiana.
Me hospedei em um local superestratégico, no coração do centro histórico, na parte alta da cidade. Tudo (de belo) muito perto. A casa, reformada, parecia ter sido um antigo comércio. À noite, no banheiro, havia uma abertura na parede pela qual era possível ouvir as pessoas conversando na rua. Inusitado, mas não chegou a incomodar.
Caminhei todos os dias pelas ruas da cidade, começando pela colazione em um dos pontos de encontro de Orvieto: Pasticceria Montanucci. Um café muito bom. Depois, mais perambulações pela catedral, museus e bairros mais afastados, em direção às antigas portas de entrada da cidade.
Na parte alta, um universo de vielas e ruas que surpreende o olhar a cada curva. Pessoas conversando, crianças brincando, sons e aromas saindo das antigas e estreitas janelas. Um vaso de flores vermelhas na frente de uma moradia. E tantos outros detalhes que só o peso da história pode oferecer. Por isso é tão bonito!
Lá embaixo, há muito mais a descobrir: caminhos, áreas verdes e espaços históricos que se espalham pelo entorno da muralha. Fiquei surpresa com a extensão dos percursos e com o visual. Visto do alto, não se tem ideia de quantas possibilidades de exploração existem por ali.
Registrei esse passeio em vídeo, que publicarei no canal do YouTube.

Greve in Chianti: uma cidade que sabe desacelerar
Dolce far niente é uma expressão italiana que sintetiza o prazer de não fazer nada, de simplesmente desfrutar o tempo, sem pressa ou preocupações. Aqui, em Greve in Chianti, é possível experimentar um pouco dessa sensação.
Fiquei realmente impressionada com o ritmo desacelerado do lugar, apesar de ser bastante visitado. Não encontrei aquela multidão característica do auge do verão italiano. Ao contrário, os horários do almoço e do descanso vespertino parecem ser levados a sério.
É somente no final da tarde que as vozes voltam a ocupar as ruas. Pais ensinando os filhos a dar as primeiras pedaladas na praça central, um casal de turistas apreciando um vinho, as luzes amareladas dos pequenos restaurantes iluminando o início da noite...
Um ar bucólico, tranquilo e muito sossegado.
Se Orvieto foi o lugar onde o movimento Cittaslow foi oficialmente fundado, Greve in Chianti tem outro papel fundamental nessa história: foi ali que nasceu a ideia de levar a filosofia do Slow Food para a vida das cidades. A iniciativa partiu de Paolo Saturnini, então prefeito de Greve, e foi abraçada por outros três municípios italianos, dando origem ao movimento Cittaslow, oficialmente fundado em 1999.
E, nesse pequeno paraíso toscano, a proposta parece ter encontrado terreno fértil. Há, sim - e relato como visitante, não como moradora -, uma atmosfera de desaceleração no cotidiano da cidade.
Passei alguns dias por lá e consegui dormir oito horas seguidas pela primeira vez em muito tempo.
Também tive a oportunidade de percorrer a Slow Road, um trajeto circular de aproximadamente 5,5 km que passa por Montefioralle e pela antiga igreja românica de San Cresci, entre outros pontos da região.
A vontade de ficar por lá foi enorme. Afinal, além de estar no coração da região do Chianti Classico, essa pequena joia toscana fica relativamente próxima de Florença.
Fico devendo um post só sobre essa experiência aqui no blog. Me cobrem!

Bra: desbravando o berço do Slow Food
Cheguei a Bra com uma notícia que abalou o restante da viagem: Carlo Petrini, fundador do Slow Food, havia falecido um dia antes da minha chegada. Fiquei bem triste. Muitas pessoas que considero fazer alguma diferença no mundo, mesmo que de forma indireta, estão deixando este plano de existência justamente no momento em que vivo.
Meu plano original, quando saí do Brasil, era ambicioso e pueril: e se eu encontrasse o Sr. Carlo pessoalmente? Ou na sede do Slow Food? Sabia que a organização já era conduzida por outras pessoas, mas, pelo que conversei com moradores locais, ninguém sabia ao certo que ele estava doente.
Prefiro detalhar essa viagem em outro artigo, mas o que posso dizer é que, pelo menos na charmosa cidade de Bra, o legado do mestre permanece. Principalmente na Osteria del Boccondivino, restaurante que tem uma ligação histórica com o movimento Slow Food. É, sem dúvida, uma das refeições mais saborosas que já experimentei na vida!
Como o universo me recompensou de uma forma não desejada, prefiro contar nos próximos posts.
Em resumo, o berço do Slow Food é uma pequena cidade cercada pelas colinas de Langhe, região reconhecida pela boa comida e pelos excelentes vinhos. As igrejas são riquíssimas, o ritmo da cidade é tranquilo, mas ativo. A Universidade de Ciências Gastronômicas (UNISG), fundada por Carlo, fica no vilarejo de Pollenzo, onde foi realizado o último adeus a Carlo Petrini, fundador do Slow Food.
No final da minha estadia em Bra, pude conhecer também a charmosa cidade de Alba.

E a caminhada continua...
A ideia inicial era conhecer cidades que, de alguma maneira, ajudaram a construir a trajetória do movimento Slow na Itália. Roma, Bra, Greve in Chianti e Orvieto faziam parte desse percurso. Queria conhecer os lugares onde suas ideias ganharam força e observar como essa filosofia se manifesta no cotidiano.
Mas, como acontece nas viagens, nem tudo se limita ao plano original. Entre uma cidade e outra, vieram Montecatini Terme, Pistoia, Firenze, Bologna e Mantova. Novas paisagens, histórias, sabores e descobertas foram se incorporando ao caminho.
Foram muitas caminhadas, algumas surpresas e experiências que merecem ser contadas com mais calma. Afinal, cada cidade tem sua própria história e, como sempre, algumas lembranças acabam ganhando um significado especial.
Voltei com a bagagem cheia de memórias e reflexões. E é justamente sobre elas que pretendo escrever nos próximos artigos, revisitando cada cidade, suas particularidades e as experiências que fizeram dessa mais uma viagem especial pela Itália.
Até lá!
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*Transparência editorial: as experiências e o texto são de minha autoria. Fotos de arquivo pessoal.
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