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Robert Louis Stevenson e o Prazer de Caminhar Sem Pressa

Atualizado: há 11 horas


Robert Louis Stevenson e sua esposa, Fanny Van de Grift Stevenson, em visita à ilha de Butaritari, nas antigas Gilbert Islands (hoje Kiribati), no Pacífico Sul, em 1890. (foto: wikipedia)
Robert Louis Stevenson e sua esposa, Fanny Van de Grift Stevenson, em visita à ilha de Butaritari, nas antigas Gilbert Islands (hoje Kiribati), no Pacífico Sul, em 1890. (foto: wikipedia)

Uma lição de slow travel que nasceu no século XIX


Viajar devagar não é uma invenção recente.


Hoje, quando se fala em viagem lenta, muita gente imagina temporadas no exterior ou estilos de vida quase inacessíveis. Mas a ideia de viajar devagar é muito mais antiga - e, na verdade, muito mais simples.


Muito antes de existir o termo slow travel, o escritor escocês Robert Louis Stevenson já escrevia sobre o prazer de viajar no ritmo dos próprios passos.


Autor de clássicos como A Ilha do Tesouro (1883) e O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde (1886), também conhecido como O Médico e o Monstro, Stevenson acreditava que caminhar era uma das melhores maneiras de experimentar o mundo.


Em um de seus ensaios mais conhecidos, Walking Tours, publicado em 1876, ele defende algo que hoje soa quase revolucionário: viajar a pé, sem pressa e com tempo para observar o caminho.


Para Stevenson, caminhar não era apenas uma forma de deslocamento. Era também uma maneira de libertar a mente, perceber melhor a paisagem e deixar que os pensamentos surgissem naturalmente ao longo da jornada.


Um escritor que viveu intensamente, apesar da saúde frágil


Robert Louis Stevenson nasceu em Edimburgo, na Escócia, em 1850. Sua família esperava que ele seguisse a tradição dos homens da casa: engenheiros responsáveis por construir faróis ao longo da costa escocesa.


Ele até tentou. Estudou engenharia e depois direito. Mas seu verdadeiro farol estava em outro lugar: a literatura.


Desde jovem, Stevenson enfrentou sérios problemas pulmonares - provavelmente tuberculose. Por causa disso, passou grande parte da vida viajando em busca de climas mais amenos.


Essas viagens acabaram moldando profundamente sua escrita.


Ao longo da vida, ele cruzou países, percorreu trilhas e navegou por rios. Mais tarde mudou-se para as ilhas de Samoa, no Pacífico, onde os habitantes locais passaram a chamá-lo de Tusitala, que significa “contador de histórias”.


Ele morreu ali em 1894, aos 44 anos - jovem, mas já famoso em todo o mundo.


Mapa da Trilha Robert Louis Stevenson (GR 70), rota de cerca de 225 km que atravessa as montanhas das Cévennes, no sul da France. (foto: oglobo)
Mapa da Trilha Robert Louis Stevenson (GR 70), rota de cerca de 225 km que atravessa as montanhas das Cévennes, no sul da France. (foto: oglobo)

A arte de caminhar sozinho


No ensaio Walking Tours, Stevenson começa com uma ideia simples: caminhadas são melhores quando feitas sozinho.


Não porque ele fosse contra a companhia das pessoas. Mas porque caminhar, para ele, era uma experiência profundamente mental.


Quando caminhamos com alguém, precisamos ajustar o ritmo, manter conversa e negociar paradas. Tudo isso quebra o fluxo do pensamento.


Sozinho, o caminhante pode simplesmente seguir o próprio ritmo - parar quando quiser, observar detalhes inesperados ou mudar de direção sem explicação.

Stevenson descreve o caminhante ideal como alguém que deve estar “aberto como uma flauta para qualquer vento tocar”.


Ou seja: disponível para as ideias, para as paisagens e para o silêncio.


Caminho nas montanhas das Cévennes, perto de Chasseradès, ao lado do viaduto ferroviário de Mirandol. Por essa região, caminhantes seguem os passos da jornada feita em 1878 por Robert Louis Stevenson, relatada no livro Travels with a Donkey in the Cévennes. (foto: wikipedia)
Caminho nas montanhas das Cévennes, perto de Chasseradès, ao lado do viaduto ferroviário de Mirandol. Por essa região, caminhantes seguem os passos da jornada feita em 1878 por Robert Louis Stevenson, relatada no livro Travels with a Donkey in the Cévennes. (foto: wikipedia)

O ritmo certo: quando o corpo anda e a mente viaja


Outra ideia central do ensaio é o ritmo da caminhada. Stevenson critica os caminhantes que tratam o passeio como um desafio atlético. Para ele, caminhar rápido demais estraga a experiência. O esforço excessivo deixa o cérebro cansado e impede o surgimento de pensamentos mais livres.


O segredo está em um passo regular e confortável. Quando o corpo entra nesse ritmo quase automático, algo interessante acontece: a mente começa a vagar. As ideias aparecem, desaparecem, se transformam. O mundo ao redor parece mais vivo.

Stevenson descreve esse estado como uma espécie de “embriaguez leve ao ar livre” - um momento em que a realidade ganha um brilho especial.


Le Pont-de-Montvert, nas montanhas das Cévennes, uma das vilas mais charmosas ao longo da trilha GR 70. (foto: wikipedia)
Le Pont-de-Montvert, nas montanhas das Cévennes, uma das vilas mais charmosas ao longo da trilha GR 70. (foto: wikipedia)

A rebelião contra o relógio


Talvez a parte mais surpreendente do ensaio seja sua crítica ao tempo moderno.


Para o autor, os relógios das cidades funcionam como pequenas prisões. Eles nos lembram constantemente de compromissos, horários e produtividade.


Durante uma caminhada, ele sugere abandonar tudo isso. Nada de medir o tempo. Nada de pressa. O dia deve ser guiado apenas por duas coisas simples: fome e sono.

Quando fazemos isso, algo curioso acontece. Um único dia parece muito mais longo, mais cheio, mais vivo. É como se o tempo se expandisse.


O momento mais prazeroso da caminhada


Curiosamente, Stevenson diz que o auge da caminhada não acontece durante o percurso - mas no final dele.


Depois de horas andando, chegar a uma estalagem, tirar a mochila dos ombros ou simplesmente sentar para descansar transforma pequenos prazeres em experiências intensas.

Um copo de bebida parece melhor. Um cachimbo de tabaco parece mais aromático. Até as páginas de um livro parecem mais profundas.


Com o corpo relaxado e a mente leve, o caminhante entra no que o autor chama de “terra do pensamento” - um estado em que ideias fluem com clareza e tranquilidade.


O Rio Gardon marca a última etapa da Trilha Robert Louis Stevenson (GR 70). (foto: oglobo)
O Rio Gardon marca a última etapa da Trilha Robert Louis Stevenson (GR 70). (foto: oglobo)

O que Stevenson pode nos ensinar hoje


Embora tenha sido escrito no século XIX, Walking Tours parece falar diretamente com o nosso tempo.


Vivemos cercados por notificações, agendas lotadas e métricas de produtividade - até nas atividades de lazer.


Mas Stevenson nos lembra de algo simples: nem tudo precisa ser eficiente. Às vezes, caminhar sem objetivo pode ser uma das experiências mais valiosas que existem.

Se quisermos trazer um pouco dessa filosofia para o presente, seu conselho pode ser resumido em três ideias simples:


1. Caminhe sozinho de vez em quando: sem conversa, sem fones de ouvido, sem notificações.


2. Caminhe sem pressa: esqueça metas de quilômetros ou contagem de passos.


3. Valorize o descanso depois da caminhada: o momento de parar faz parte da experiência.


No fundo, suas ideias parecem apontar para algo que hoje associamos ao slow travel: a ideia de que viajar - mesmo que seja apenas pelo próprio bairro - não precisa ser sobre chegar rápido a algum lugar. Pode ser simplesmente aprender a caminhar pelo mundo com mais atenção.

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📝 PRINCIPAIS REFERÊNCIAS DO POST*:


🐌 GUIA BÁSICO DO SLOW TRAVEL:


*Nota: Este post é um editorial.

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