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Turismo do Sono é um Pesadelo?

Atualizado: há 16 horas


Você pagaria para dormir?


A pergunta parece absurda. Mas foi exatamente isso que vi recentemente em um vídeo sobre turismo. Fiquei pensando tanto nisso que decidi escrever - como uma forma de organizar esse incômodo - e compartilhar uma reflexão sobre a estrutura social, por vezes "bizarra", na qual estamos inseridos.


O tal "turismo do sono" surgiu como uma "nova" tendência na forma de viajar: pessoas que escolhem lugares, hotéis e experiências não pelo que vão ver - pelo menos em essência - e sim pela chance de finalmente descansar.


Trata-se, basicamente, de viagens organizadas para que as pessoas consigam fazer algo que deveria ser natural: dormir bem.

Os itens ofertados vão desde quartos silenciosos - o que eu apoio - até menus de travesseiros, programas personalizados, "terapias" diversas e especialistas do sono, uma espécie de "coach" que ensina a dormir melhor.


O curioso é que a atividade é chamada de turismo, mas o objetivo não é conhecer um lugar - é conseguir dormir.



Quando o descanso vira produto


Por mais que isso cause estranhamento para alguns, não se trata exatamente de uma novidade.


Vivemos em um mundo em que praticamente tudo - de objetos a experiências - pode ser transformado em produto. Era apenas questão de tempo até que o "ato natural de dormir" também fosse parar na prateleira. E o que virá depois? O "turismo do ar puro"?


Mas o que isso diz sobre nós? Não chegou a hora de repensarmos a forma como estamos vivendo?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que ganhou bastante destaque nos últimos anos, escreveu diversos ensaios sobre como o tempo de descanso vem sendo gradualmente sugado da nossa vida.


Na obra A sociedade do cansaço, Han analisa como a cultura contemporânea de desempenho e produtividade consome nossa energia e transforma cada minuto em obrigação de produzir resultados, sem considerar nossa exaustão.


Nesse cenário, o descanso deixa de ser natural. Dormimos não porque isso faz parte do viver, mas apenas para estarmos prontos para continuar produzindo no dia seguinte.



O cansaço não é individual


Esse cansaço não é apenas uma questão pessoal. Ele é resultado de um modo de vida.


Estamos imersos em uma sociedade hiperconectada, com atenção fragmentada, ritmo acelerado e uma expectativa constante de disponibilidade.


Pense no seu celular: você consegue realmente encerrar o trabalho ao final do dia? Ou ainda responde mensagens e resolve demandas tarde da noite?


Isso não é apenas uma sensação. Dados recentes apontam para o aumento do cansaço em diversas áreas. O Ministério da Previdência Social mostra que, em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais - um crescimento significativo em relação ao ano anterior.


O cenário é um alerta. Estamos diante de um processo contínuo de esgotamento, sem que medidas estruturais eficazes estejam sendo implementadas.


Por isso, é importante entender: o cansaço é produzido socialmente. E, quando ele se torna generalizado, algo previsível acontece: surge um mercado para resolvê-lo.


Não por acaso, a forma como vivemos acaba moldando também aquilo que sentimos necessidade de consumir.


E talvez seja isso que esteja em jogo: quando dormir bem vira luxo, o que isso diz sobre o modo de vida que levamos?


O sistema social e econômico em que estamos inseridos produz cansaço - com trabalho intenso, ritmo acelerado e excesso de estímulos. E depois vende recuperação. O "turismo do sono" é parte dessa lógica.

Se não conseguimos nos desligar, alguém vai nos vender "detox digital". Se não conseguimos desacelerar, alguém vai nos vender um lugar isolado e estruturado para isso. É nesse ponto que essa modalidade turística encontra espaço.


E talvez o mais estranho seja que dormir - uma das necessidades mais básicas do ser humano - passa a ser algo que precisa ser comprado. Um produto que exige planejamento, deslocamento e investimento.


O que era natural se torna raro. E o que se torna raro… vira luxo.



Dormir é o novo luxo


Quando pensamos nesse tipo de turismo, percebemos algo curioso: aqui, o luxo não está no excesso, mas na ausência - ausência de ruído, de pressa e de interrupções.


Dormir bem passa a ser um privilégio, distante da realidade da maioria. Isso talvez diga mais sobre a nossa sociedade do que qualquer tendência turística.


Diante disso, surge uma pergunta: por que precisamos nos afastar da nossa própria rotina para conseguir descansar? O que isso revela sobre o ritmo em que estamos vivendo?

Quando experimentamos uma forma mais lenta de viajar, algo diferente acontece. Permanecemos mais tempo nos lugares, reduzimos estímulos, aceitamos o tédio como parte da experiência e, aos poucos, podemos abrir espaço para repensar o nosso estilo de vida.


No "turismo do sono", o descanso é um objetivo; no slow travel, ele é uma consequência.



Nada disso significa que esse tipo de turismo seja necessariamente ruim. Há algo legítimo em querer parar, descansar e se recuperar. E, obviamente, existem "nichos de mercado" para diversos públicos. Mas sinto que há um limite nessa lógica.


Se precisamos viajar para conseguir dormir, talvez o problema não esteja no sono, mas na vida que levamos quando estamos acordados.

Além disso, o que me incomoda quando me deparo com certas "tendências" ou "novidades" é que o tema de fundo quase nunca é sequer citado. Como se, ao não falarmos disso, a questão simplesmente desaparecesse.


Nas publicações posteriores que li para escrever este post, a ausência de crítica social é evidente. E, se não vale mais a pena colocá-la em um artigo - mesmo que seja só "turístico" - qual é o papel reflexivo que temos sobre a "atividade humana de viajar"?


O quanto isso está relacionado com o direito de termos mais tempo livre, mais qualidade de sono, mais vida além do trabalho?

Talvez o "turismo do sono" não seja exatamente um pesadelo. Mas pode ser o sintoma de um - um pesadelo silencioso e cotidiano, que não acontece durante a noite, mas se manifesta no dia a dia. E que, aos poucos, nos faz "esquecer" como é simplesmente descansar.


A reflexão que tento trazer é: se vivemos em uma sociedade em que precisamos "comprar" nosso descanso, talvez seja urgente questionar o que entendemos por produtividade, como queremos usar nosso tempo e quais estruturas sociais e econômicas influenciam diretamente essas escolhas.


Sem esse entendimento, corremos o risco de enxergar o turismo apenas como mais um "produto" - restrito a poucos - e não como um direito coletivo.

A viagem lenta, na minha leitura, pode ser vista como um ato de resistência simbólica: desacelerar e valorizar o tempo vivido exige uma compreensão maior de como o mundo funciona, mesmo em uma sociedade que transforma tudo em produto, inclusive o próprio descanso.

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📝 Referências Teóricas*:

📰 Leituras Recentes sobre o Tema:


🐌 GUIA BÁSICO DO SLOW TRAVEL:

*Nota: Este post é um ensaio reflexivo.

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