O Que a Caminhada Me Ensinou Sobre Viver
- Fernanda Paula

- há 2 dias
- 5 min de leitura
Atualizado: há 7 horas

Você já se sentiu mentindo pra si mesmo?
Tenho certeza que uma grande parte da humanidade, sim. Mas, nós somos civilizados, não é mesmo? - e dizemos que não.
Não é comum expressar que estamos infelizes ou insatisfeitos. É inconveniente. Cansativo. Pense comigo: alguém vem na sua direção, educado e sorridente, e pergunta: "Oi, tudo bem?" E respondemos automaticamente: "Claro, tá tudo bem. E você?"
Fato é que, se formos realmente sinceros, provavelmente não estamos "100% bem". Ainda mais vivendo em um contexto que, muitas vezes, não nos permite vislumbrar uma saída a médio prazo.
Como bem ilustrou Arthur Schopenhauer: "a vida é uma guerra sem tréguas, e morre-se com as armas na mão".
Às vezes, sentimos a necessidade de entender não apenas as causas, mas a origem desse incômodo. Muitos de nós se cansam de travar batalhas internas e passam a procurar respostas. O curioso é que as pistas estão por todos os lados - mas não as enxergamos.
Estamos tão imersos no cotidiano que a luz não nos atravessa. Há uma espécie de neblina, uma bolha na qual estamos presos. Para rompê-la, existem dois desafios: primeiro, admitir que ela existe. Segundo, aceitar que o caminho é longo, doloroso e sem garantias.
Podemos até encontrar ferramentas que façam um pequeno furo nessa bolha. Mas esse furo pode se fechar novamente.
E o que acontece então? Desistimos? Podemos até tentar. Mas a água volta a subir até o pescoço - e a busca recomeça.
O Budismo afirma que "a vida é insatisfação". Ou seja, não há como fugir desse incômodo. Ele faz parte da existência humana.
É como se fôssemos um eixo desajustado de uma carroça: mesmo em uma estrada nivelada, ela segue sacudindo. O desafio é nos adaptarmos a esse desalinho natural e tentarmos viver da melhor forma possível.
Mas como aprendemos a viver? Errando. Acertando. Vivendo.
Às vezes, acessamos alguma sabedoria com o tempo. Mas grande parte de nós precisa de um "propósito", um "roteiro" para continuar.
Quem encontra algumas pegadas na areia, como nos sugere um antigo poema zen-budista, pode tentar segui-las. E, com dedicação, talvez vislumbrar uma sensação de contentamento.
Outros procuram em textos, práticas ou na arte.

Dos estóicos a Nietzsche. De Dostoiévski a Fernando Pessoa. Essas formas de ver a vida ajudam a nomear experiências que muitas vezes sentimos, mas não conseguimos expressar.
A filosofia e a arte, nesse sentido, traduzem e aliviam certos incômodos, funcionando quase como um "remédio" para a alma.
Essa reflexão é uma tentativa de retornar à pergunta inicial: será que estou mentindo pra mim mesma? Ou o "furo da minha bolha" apenas fechou novamente?
Nos outros textos que tenho compartilhado aqui, falo com frequência da caminhada. Ao longo desse percurso, ela se tornou uma das principais ferramentas que encontrei para lidar com essa angústia. Nela, retorno ao meu centro, reconecto-me com a vida e relembro o que faz sentido.
Muitos de nós procuram soluções rápidas e mágicas para encontrar satisfação. Mas sinto que é nas pequenas práticas que algo se revela.
O ponto é que, para isso, é preciso pausar. Ter tempo disponível.
Infelizmente, parte do nosso tempo é "roubado" - e muitas vezes por nós mesmos.
Sob o ponto de vista do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, somos nossos próprios carrascos. Nos cobramos demais, buscamos resultados vazios e nos perdemos em distrações que pouco acrescentam.
Como ele diz, vivemos em uma época de "fragmentação temporal", em que a aceleração elimina o ritmo da vida.
Seu "remédio" passa por duas ideias: a arte de demorar-se e a resistência à produtividade excessiva.
Hoje, percebo que muitas dessas ideias ganham sentido quando as contemplo em movimento.
Caminhar, para mim, não é apenas uma atividade física. É uma forma de meditação.
Há um estado de presença quando a mente se conecta com o caminho. Algo difícil de explicar, mas cada vez mais evidente.
Às vezes, a caminhada se torna uma ampliação do momento presente - uma sensação em que o agora se sustenta, e estar nele já é suficiente. A calma, o bem-estar e até a alegria aparecem.
Repetir essa prática é, hoje, uma forma de me manter viva.
Dito isso, percebo que não estou mentindo pra mim mesma. Apenas preciso revisitar caminhos que já me fizeram bem. Nesta fase da minha vida, sinto que é o momento de compartilhar mais essas descobertas.
Comecei esse projeto falando de viagem. Hoje entendo que ela é, na verdade, uma metáfora. No fundo, talvez sempre tenha sido sobre aprender a caminhar, não apenas pelos lugares, mas por dentro.
Agora, quero seguir deixando outras pegadas - dividindo experiências, apontando caminhos e deixando a vida seguir sem pressa.
P.S.: Gratidão a quem chegou até aqui. Nos "lemos" no próximo texto.
_
📝 Referências Teóricas:
GENSHŌ, Monge. O Caminho Zen. Ed. Monge Genshō/Daissen, 2021
GROS, Frederic. Caminhar, Uma Filosofia. Ubu Editora, 2011
GOMPERTZ, Will. Como os artistas veem o mundo? Ed. Zahar, 2023
HAN, Byung-Chul. O aroma do tempo. Vozes, 2016
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Vozes, 2015
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Companhia das Letras, 2011
PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Companhia das Letras, 2006
WILLIAMS, Mark e PENMAN, Danny. Atenção Plena: Mindfulness. Ed. Sextante, 2015
SCHOPENHAUER, Arthur. As Dores do Mundo. Edipro, 2018
Dr. Qing Li. Shinrin-Yoku: The Art and Science of Forest Bathing. Penguin Books, 2018
THOREAU, Henry David. Caminhar. L&PM, 2012
📰 Leituras Recentes sobre o Tema:
🎬 Filmes e Curta-metragem:
A Forest Bath. Bryce Saucier (2019)
Lost in Translation. Sofia Coppola (2003)
Perfect Days. Wim Wenders e Takuma Takasaki (2023)
Stalker. Andrei Tarkovsky (1979)
🎵 Música Que Inspirou Este Texto:
YAVANI SINIKKA. Lokah Samastah Sukhino Bhavantu.
👉"Que todos os seres, em todos os lugares, sejam felizes e livres."
🐌 GUIA BÁSICO DO SLOW TRAVEL:
*Nota: Este post é um ensaio.
*Artigo © 2021–2026 Viajar Sem Pressa. Todos os direitos reservados.
Quer continuar a viagem?
No Instagram, compartilho outras paisagens, dicas de filmes, livros e práticas.
No Spotify, você encontra a trilha sonora do blog Viajar Sem Pressa.
No Youtube, estão reunidos os vídeos das viagens.


