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Precisamos de Mais Parques Públicos

Atualizado: há 1 dia

Cuidar da cidade é cuidar de quem vive nela.
Cuidar da cidade é cuidar de quem vive nela.

Meu Parque, Minha Vida


Há algum anos, um dos parques mais visitados da minha cidade teve diversas árvores centenárias derrubadas após um grave acidente, causado pela falta de manejo e manutenção adequados. 


Isso resultou na perda da característica mais bonita e sombreada do local. O que antes era um bosque denso, com remanescentes centenários da Mata Atlântica, transformou-se em uma clareira ensolarada - justamente em uma das áreas que eu considerava mais bonitas do parque.


Em vez de restaurar o aspecto original do bosque, o poder público local optou por instalar um parque infantil sob o sol escaldante - o que me parece um completo amadorismo arquitetônico - apenas para "simular" uma reparação pelo trágico incidente


Além disso, para "demarcar território" e registrar o nome dos 'benfeitores' da obra, tiveram a indignidade de erguer uma enorme cruz de eucalipto com os dizeres: "pátria e família" - o que, diante do que havia acontecido ali, soava mais como propaganda do que como qualquer forma de reparação.


Problemas antigos, que existem desde a minha adolescência, continuam sem solução: a infestação contínua de carrapatos, que impede o uso do gramado e das áreas sombreadas; a iluminação precária à noite e o déficit de bancos para descanso e contemplação.


Nada disso entrou, mais uma vez, na equação das melhorias. Diante de uma tragédia, a resposta foi "rápida", mas seletiva. (E aquela cruz, continua lá...)


Fazia tempo que não sentia tanta tristeza por um lugar. Aquele espaço fazia parte da minha memória afetiva e, hoje, ao caminhar por ali, sei que, nesta vida, não verei novamente aquele bosque denso e frondoso como antes.



Um parque não é "só um parque"

Durante minhas andanças por diversas cidades brasileiras, tenho observado que isso se repete mais do que eu gostaria: áreas verdes mal cuidadas, pouco valorizadas, sem manutenção - praticamente esquecidas pelo poder público.


Vejo isso como um sintoma de algo maior: os espaços verdes ainda são frequentemente negligenciados no planejamento urbano de muitos municípios, o que impede que sejam usufruídos em todo o seu potencial.

Ao contrário do que acontece com a especulação imobiliária e os processos de gentrificação - quando uma área da cidade se valoriza a ponto de expulsar moradores antigos, que já não conseguem arcar com o custo de viver ali -, que avançam a todo vapor. Nesses casos, o investimento surge com uma rapidez impressionante.


Esse tema abre uma ampla discussão, que envolve diferentes aspectos - do planejamento urbano aos hábitos de consumo. Sim, consumo.


Quando o shopping center se torna a principal opção de passeio, isso também revela algo sobre o tipo de cidade estamos construindo.


Ainda assim, talvez possamos acrescentar algumas perguntas a essa reflexão:


Compreendemos realmente os benefícios econômicos e sociais desses oásis verdes? Ter mais contato com a natureza faz, de fato, diferença em nossas vidas? Os parques são mesmo necessários?


Os parques são ambientes que restauram nossa saúde física e mental.
Os parques são ambientes que restauram nossa saúde física e mental.

O que a ciência já sabe


Sim, os parques são muito importantes - e há algum tempo vêm sendo estudados por diferentes áreas da ciência.


A Psicologia Ambiental - um ramo da Psicologia que investiga como percebemos e reagimos aos ambientes ao nosso redor - mostra que o lugar onde vivemos influencia diretamente nosso bem-estar.


Por exemplo: sabemos que alguns espaços nos sobrecarregam; outros nos acalmam.


E os ambientes naturais, quando bem cuidados, têm um efeito particular: ajudam a restaurar nossa atenção, reduzir o estresse e oferecer uma espécie de refúgio mental dentro da rotina.

Não por acaso, práticas como o Shinrin-yoku - o chamado "banho de floresta", que já detalhei em outros textos - vêm ganhando cada vez mais adeptos.


A proposta é simples: estar na natureza de forma consciente. Caminhar devagar, observar, respirar - sem pressa e sem a necessidade de produzir algo.


Diversos estudos recentes mostram que esse tipo de experiência pode reduzir os níveis de estresse, melhorar a concentração e favorecer o equilíbrio emocional.


A cidade não é só circulação e consumo: é um espaço de vida, encontro e experiência.
A cidade não é só circulação e consumo: é um espaço de vida, encontro e experiência.

O direito à cidade (e ao respiro)


Outra área relacionada a esse tema é o urbanismo, que dialoga com campos como a sociologia, a filosofia e a psicologia para reforçar a importância dos espaços públicos na saúde das pessoas.


O filósofo e urbanista francês Henri Lefebvre, um dos pensadores mais influentes neste campo,  defendia a ideia do "direito à cidade".


Para ele, a cidade não deveria ser apenas um espaço de circulação, consumo ou produtividade, mas um lugar de vida, de encontro e de experiência.

Isso inclui o direito de acessar e usufruir plenamente dos espaços urbanos - especialmente aqueles que permitem pausa, convivência e bem-estar.


Parques públicos, portanto, não são apenas áreas de lazer, mas parte fundamental desse direito. E, quando esses espaços são negligenciados, o que se perde não é apenas infraestrutura, mas uma dimensão essencial da vida urbana.


Outro ponto importante é que, em uma sociedade em que viajar ainda é um privilégio para muitos, os espaços públicos ganham um papel ainda mais relevante.


Nem todos podem se deslocar para longe, conhecer novas paisagens ou buscar refúgio fora da rotina. Para grande parte da população, é na própria cidade que essa possibilidade precisa existir.

Parques, praças e áreas verdes deixam de ser apenas opções de lazer - e passam a ser uma das poucas formas acessíveis de descanso, contemplação e reconexão com o tempo.



Precisamos de mais refúgios


Quando comecei este projeto de refletir sobre "a arte de viajar", sempre incluí os parques públicos como uma parada obrigatória dessa atividade. Mesmo porque são nesses espaços que passo a maior parte do meu tempo livre. Viajar são momentos pontuais.


O dia a dia na cidade é onde a vida realmente acontece. Por isso, perder parte daquele bosque foi tão difícil para mim.


Ali não era apenas um local de passagem, esporádico. Era um lugar de refúgio, de respiro, de pausa e de reabastecimento de energia para a semana que viria pela frente.


Cuidar dos parques públicos, ampliá-los e garantir a eles a manutenção de qualidade que merecem não pode ser deixado de lado pelos municípios.

Eles são necessários para a saúde de todos - inclusive da própria cidade. Ou melhor: eles são um direito.

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📝 Referências Teóricas:


📰 Leituras Recentes sobre o Tema:


🎬 Filme e Curta-metragem:


🐌 GUIA BÁSICO DO SLOW TRAVEL:


*Nota: Este post é baseado em pesquisas informais.

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